"Nonne cor nostrum ardens erat in nobis, dum loqueretur IN VIA?" – Não é verdade que sentíamos abrasar-se-nos o coração, quando nos falava no caminho?
Caminhava Cristo para Emaús, também disfarçado como ali está, até que os dois discípulos fizeram alto para passar a noite. Deixou-se o Senhor convidar, assentou-se à mesa, consagrou o pão, partiu-o entre ambos, e, conhecido, desapareceu. Tudo isto encerra grandes mistérios, mas o que eu considero ainda espera pela segunda parte da história. Voltam os dois discípulos para Jerusalém, já não tristes, mas cheios de alegria e alvoroço, já não fracos na esperança, mas confirmados na fé, e, conferindo o que lhes tinha sucedido, diziam entre si: Nonne cor nostrum ardens erat in nobis dum loqueretur in via (Lc 24, 32)? Não vistes como nos ardia o coração quando nos falava pelo caminho? -- Tende mão: aqui reparo e argúo os mesmos discípulos. Duas coisas tinha Cristo feito, uma no caminho, outra na mesa, e esta ainda maior, porque no caminho praticava com eles; na mesa, deu-lhes seu próprio corpo sacramentado. Pois, se dizem que lhes ardia o coração quando o Senhor lhes falava, por que não dizem que lhes ardia quando comungaram seu corpo? Quando comungaram estava Cristo mais perto do seu coração, quando lhes falava estava mais longe; quando comungaram estava dentro neles, quando lhes falava ia somente com eles: Ibat cum illis (Lc 24, 15). -- Pois, se lhes não ardia o coração quando comungaram, por que lhes ardia quando somente o ouviam? Por isso mesmo: porque o ouviam. E para acender e abrasar corações, parece, tem mais eficácia Cristo ouvido que Cristo comungado. Comungado desce ao peito, ouvido acende o coração.
Padre Antônio Vieira
Sermão III - Maria Rosa Mística

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